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Lestada e desconstrução

Exposição na Fundação Cultural BADESC
de 15/08 a 28/09de 2007- Florianópolis, SC

e Galeria Multipla- São Paulo de 6 de outubro.
Artistas: Flávia Fernandes, Philippe Arruda, Mauricio Muniz, Cassia Aresta, Juliana Hoffman, Helenita Peruzzo.



Linha de Horizonte- Flávia Fernandes
tubos de PVC    Água colorida, fotos e luz-2007
 
aquario Flávia  Fernandes 2007
fotos adesivadas e água
 
   
 
O Mar-  Flávia Fernandes-som do mar , tubo e porão
 
   
 

Lestada Desconstrução- Texto de Anita Koneski

“Emprestando seu corpo ao mundo é que o pintor transforma o mundo em pintura”, nos diz Merleau-Ponty. A arte ilustra o enigma do mundo e se constitui na ciência secreta que fazem os artistas quando, emprestando seu corpo ao mundo, empreendem uma busca das “coisas mesmas”. Daí, a visão se torna gesto, o artista pensa com a arte.
Assim, Phillipe Arruda vai ao mundo, move seu olhar atrás da câmara pelas ruas da cidade de Florianópolis e nos ensina um novo código visual. Captura, então, o que seu olhar indica a partir dos projetos do seu corpo no mundo. Há no resultado dessa captura um modo de ver, pensar e sentir o mundo. Ali, o olhar escolhe, apalpa, envolve, inventa os meios de se aproximar das coisas. Phillipe Arruda, a meu ver, mais do que registrar, interroga a visão.
Prolongam seu interrogatório, os componentes do Grupo Lestada, do qual Philippe também faz parte, quando assumem a proposta de, a partir de suas fotografias, ampliar sua busca. São todos buscadores. Assim, a exposição que carrega o nome, Lestada e a Desconstrução, apresenta obras de arte a partir das fotografias de Phillip Arruda, trilhando os caminhos da desconstrução. Desconstrução que se realiza não como destruição, mas como ação poética que encoraja a pluralidade dos olhares, disseminando possibilidades “outras” para ver o mundo. A desconstrução se estrutura como crítica dos pressupostos estabelecidos para a cidade, desvelando o que dela não vemos de imediato.
A proposta de desconstrução do grupo que amplia nossa noção de olhar se constitui, essencialmente, numa ética do olhar. Há nela forte pretensão à repercussão enquanto aprofundamento de nossa reflexão sobre a cidade.
 É como “ética do ver” que a poética que se desvela nas obras de Flávia Fernandes nos vem à percepção. O aquário que a artista nos apresenta, joga com os reflexos na água limpa, de imagens avermelhadas artificializadas, do lixo no costão e na lagoa, que espreitamos de vários ângulos. No antagonismo entre a natureza e a ação humana, repercute mais intensamente a intromissão humana, que a artista infere, sendo que, a insistência dos ângulos dos quais o olhar não consegue se livrar reforça seu recado.
 Os longos canos dispostos sinuosamente na parede e apresentados em outra obra de Flávia, carregam nas extremidades imagens de edifícios sustentados pela vasta porção de água que parecem lembrar a vocação da cidade de Florianópolis de ser ilha. Recordo o pensamento de Tales de Mileto, o pré-socrático, que ensinava ser a água a substância única de todas as coisas. Idéia poética ou não, a terra é, realmente, como pensava Tales de Mileto, um grande disco boiando sobre a água. Porém, nos resta pensar em que tipo de água ela deve boiar. Digamos que as obras de Flávia resgatam uma noção de terra bastante antiga, hoje desesperadamente atual. Seus edifícios estão nas margens de uma vasta porção de água. 
Através de uma ação poética frágil, Helenita Peruzzo confere aos edifícios visibilidade e os apresenta sustentados por linhas e alfinetes. Nosso olhar indaga: são edifícios, ou são corpos humanos, que ali estão? Não sabemos. Ou melhor, não ousamos definir. Helenita realiza com paixão o enigma da visibilidade. Tais obras driblam nosso olhar através da distorção e da sombra. Não em vão, pois para a artista as estruturas dos edifícios, embora denotem poder e força, são muito frágeis. Todo existente é muito frágil. Helenita brinca com essa fragilidade através das dobraduras, das linhas, dos alfinetes, e das sombras. A artista costura os mistérios do existente. Ali, todo existente carrega sua sombra enquanto desvelamento do que está sempre “por vir”; a morte. Há nas obras de Helenita um “murmúrio”, uma espécie de estranhamento, um lamento pela condição frágil da cidade e dos que nela vivem.
Algo, igualmente “murmura” nos espaços de Cássia Aresta. Seus trabalhos costumam primar pelos espaços vazios. Ela os define como vazios-cheios de, angústias, denuncias e lamentos. Porém, nos trabalhos que apresenta em, Lestada e Desconstrução, observo o vazio se metamorfosear em imagens que, uma vez desconstruídas, se afirmam nas repetições que preenchem os espaços. Repetições de janelas, pedaços de varandas, plantas estruturais de edifícios. Aqui, ironicamente, o cheio sugere a força do vazio, uma solidão sem fim. Dá-se, então, o estranhamento, quando a imagem que tenta se afirmar pela clareza da repetição, produz o seu contrário. Para a artista toda cidade tem a sua estrutura enquanto reflexo de uma estrutura “interna” dos indivíduos que nela habitam. Essas estruturas ditam padrões que vão se confirmando como verdades. Ao se consolidarem elas podem matam a cidade. Suas obras denunciam esses padrões que matam a cidade. Cada pedaço da cidade reflete para além de sua aparência, ou seja, suas obras antes de nos fazer ver a cidade nos fazem ver seus “ocupantes”. As obras de Cássia vão à essência, ao invisível do que se faz visível, e, na sua desconstrução nos lembram que, verso e reverso são partes de uma e mesma moeda.
As obras de Juliana Hoffman adquirem força pelas imagens que nelas se multiplicam na insistência do “olhar buscador”. Juliana justapõe as imagens de tal forma que, como num caleidoscópio, capturamos uma multiplicidade de ângulos da cidade. Suas obras nos inferem um entrelaçado de visão e de movimento que se desdobra continuamente, não especificamente, no que a artista nos dá objetivamente, mas no que suas obras impõem ao nosso olhar enquanto olhar desejoso do desvelamento. Obras que exigem o movimento de um andarilho errante que descobre a cidade espreitando seus labirintos, vasculhando o que está atrás da mera aparência. Labirintos que se realizam na justaposição das lembranças, onde uma se une a outra, mas que podem, repentinamente, se desconstruírem pela dor e pela solidão lá onde as imagens recusam-se a configurar-se com clareza. O enigma da cidade parece estar no vermelho intenso que interrompe o olhar. Porém, de todo modo, há sempre uma promessa a fim de que o andarilho refaça sua caminhada. Existem muitos “outros” ângulos a serem caminhados. O caleidoscópio confunde e fascina nosso olhar. As obras de Juliana nos convidam a brincar de espiar a cidade.  Uma brincadeira séria.
Philippe Arruda realiza “outro” espaço poético quando volta às suas fotografias e, então, olha a cidade através de uma fenomenologia da alma. Aqui ele interroga sua própria visão. A meu ver, interroga a intimidade. Penso nessa intimidade do dia a dia, que fica bem guardada, cada uma nas suas casas, que são as angústias, alegrias e “mortes” de cada indivíduo. As obras de Philippe, a meu ver, tentam recuperar, os vestígios dessa intimidade. Assim, seu edifício, uma imagem desestabilizada, vomita medos e dores, uma substância virulenta, porém necessária, para o ritual que expurga as dores da intimidade.
 Enigmáticos são os rostos distorcidos dos componentes do próprio grupo Lestada, nas janelas do edifício que Philippe Arruda apresenta. O que fazem eles ali? Talvez, confirmem que nem os poetas estão isentos do ritual de expurgação. Ou, que somos todos, angustiados habitantes da imensidão de nós mesmos, que tem a cidade como extensão.
Maurício Muniz infere a suas obras uma reflexão para o que está à margem. Recupera a periferia da cidade não apenas como aparência, mas enquanto conceito renovado. A periferia é o diferente. Desta forma o artista desconstrói a região do morro com suas casinhas acenando para “outra” ordem. O que é ser periferia? Tudo em suas obras nos remete ao sintoma de desconforto que causa pensar a ambivalência. Damos a cidade uma ordem artificial para fugir da ansiedade de pensar o diferente. As obras de Maurício apontam para o fato de que a ordem que impomos a cidade insiste em carregar consigo o ambivalente, a exemplo da verticalidade, uma suposta ordem, mas que apresenta uma forte vocação para afundar a cidade em suas águas ou, ainda, a exemplo da periferia, sempre vista como desordem, mas que é apenas outra possibilidade de ser cidade.    
A exposição Lestada e a Deconstrução, celebra a visão que, devoradora, ultrapassa os simples dados visuais e nos abre para o enigma e o estranhamento do mundo no qual vivemos, tentando, incisivamente, inferir uma “ética da visão”.
Os componentes do grupo Lestada, a meu ver, foram atenciosos com a ilha de Florianópolis que se ofereceu ao “desvelamento”. Aceitaram um convite. Indagaram: o que a faz ser uma ilha-cidade? Buscaram respostas, mesmo sabendo que deverão repetir infinitamente a mesma indagação. Realizaram a ciência secreta que os fez ir “além”, que os fez ir à essência, esse lugar sempre aberto, em que indagar não significa necessariamente encontrar as respostas.


 
   
 

 

 
 

entrada -Philippe Arruda                                           Helenita Peruzzo


Cassia Aresta                                                        Philippe Arruda


Mauricio Muniz


Juliana Hoffman