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5 Fragmentos e 1 Problema / 5 fragments and a problem
Corpo Frágil / fragile body
Mar dentro de casa / the sea inside the house
Ouvir o rio / Listen the river
 
 

Fragmento 5

Fragmento 5

Fragmento 5
 

Fragmento 3

Fragmento 4
 

Fragmento 1

Fragmento 2
 
Texto poético de Nestor Habkost a respeito do trabalho.
Instalado no Museu de Arte de Santa Catarina-Florianópolis,SC – ano 2000
E nas Oficinas culturais de Uberlândia -MG– ano 2001
 

Olhar de arqueólogo, de geólogo, de cosmólogo? Somos forçados a interrogar o que nos dá a ver com refinada acuidade a artista plástica Flávia Fernandes. Quando se entra em contato com seu recente trabalho, a deriva é inevitável e situar-se quase uma necessidade.

Resina acrílica, papel, madeira, tecido e tinta, são materiais que assumem formas inusitadas. Tudo se compõe em fragmentos como se fossem indícios de um problema.

Fragmento 1 - Lâmina é obra arqueológica. Sobre o chão em tom que sugere sangue ralo, temos na forma de um instrumento o resgate de um instrumento paleolítico, passagem do tempo que atualiza no corte veloz e profundo da peça frontal, a violência sobre as camadas da terra, como as que são arrancadas da superfície planetária diariamente pelo homem, transformando-as em feridas abertas, alerta a uma civilização que se esvai.

Fragmento 2 - Fóssil lança o olhar a uma ação da natureza, a visão penetra o processo de sedimentação que transforma espécies vegetais e animais em minerais. O tempo se estende, sofre um alongamento, as eras geológicas tornam quase insignificantes os infindáveis agoras depositados em seres.

Fragmento 3 - Faixa de tempo pode ser vista como uma superfície espectral de disposição de eventos. A explosão de recortes, espécie de proliferação de falhas de tempo, impede, como inicialmente sugere o título da obra, a sucessão como encadeamento linear entre passado presente e futuro. Na falha do tempo o evento precipita –se produzindo uma dobra entre passado e futuro, ou uma forma de ruga onde escapa um presente comprimido, encurtado. Tempo em camadas recortado no agora.

Fragmento 4 - Percurso é o traçado, se assim se pode dizer do insólito. Nele aprendemos sinais de algo que soa como uma linha diferencial de territórios que faz subsumir, como um rio em movimento, as suas margens. O branco e o preto mais que jogo cromático, distinguem entidades geológicas em transformação. Percurso torna-se, neste caso, não o trajeto percorrido, mas a mutação em si mesmo.

Fragmento 5 - Fragmento de uma grande explosão planetária a deriva no espaço ideral ou apenas um pedaço de casca de terra? Da parte árida, ressequida e quase morta poderá ainda brotar a vida? Ou guardará ela, para um observador projetado muito adiante, o segredo do que já foi, partícula a partícula, camada a camada a cosmológica história da terra.

Eis os traços ou indícios de uma inquietação que a obra desenvolve numa materialidade bruta. Flávia atravessa o plano da sensibilidade para atingir o plano do pensamento. Cabe a nós toparmos com o problemático e sondar o sentido, momento sublime em que a arte nos faz pensar.
 

Nestor Habkost

Filósofo e professor de filosofia da UFSC.

 

 

 

Texto crítico de João Evangelista de Andrade Filho

 

Sobre a feição cultural de Florianópolis vigoram clichês tão persistentes quanto ilusórios.

A caracterização como Ilha da Fantasia e da arte Mito-mágica, ainda que convenha ao turismo, não resiste à análise dos fatos. Esta, ao contrário, dirnos-ia que se trata de local de inconformismo, de inquietação, de atualização e de pesquisa. Pelo menos trinta artistas que vivem na cidade, trabalham vinculados ao repertório internacional da atualidade e estão decididos a contribuir para a captação da essência da realidade contemporânea, longe, portanto de mitos e magias.

Nesse grupo se destaca Flávia Fernandes pela ousadia do fazer, pela inteligência e ousadia do processo; pela originalidade no tratamento do objeto de arte; pela ampliação dos limites da experiência plástica.

Por dominar os recursos que servem tanto à captação dos impulsos e à exploração dos materiais quanto à sistematização dos problemas e soluções construtivos; por gerar sutil coerência na estruturação do objeto. Flávia Fernandes pode conceder-se ao luxo de expressar-se em termos complexos e laboriosos, conquanto vise e atinja a simplicidade que, segundo a lógica cultural de hoje, garante o bom artefato.

Suas pinturas – objeto, ou melhor, colagem - objetos, abstratas, mostram um compromisso entre objetividade e subjetividade que além de enriquecer o comportamento, surpreende pelo paradoxo do resultado. Com efeito, porque do demorado artesanato, implícito no método e resistência dos materiais, se depreende uma noção de filtragem, de depuração, que só a obra concluída e montada vão revelar. E a revela como o decantar-se o puro do impuro, o limpo do contaminado; como o fazer-se brotar a acuidade da forma exigente a partir dos elementos “mal” pintados ou “mal” gravados, na aparência lançados a esmo, mas infalíveis pontos de referencia na leitura que o vaguear dos olhos há de agregar ao trabalho que se desenrola.

Própria de quem, em sutis medidas, joga com a espontaneidade e o cálculo, com a intuição e o voluntarismo, o que caracteriza prioritariamente a profundidade do pendamento e da visão da artista é sua ética da liberdade e do espaço.

Quando em certa altura dos anos 50 o trabalho bidimensional de arte liberou-se do formato tradicional do império da moldura, abriu-se para o artista plástico um sem número de possibilidades, um enriquecimento dos meios muito bem aproveitado, em seu momento pela “arte povera”.
Com o reencontro de portas abertas pela geração de Burri, de Milares, de Tapies e de Rotella, já no limite entre o bi e o tridimensional, Flávia Fernandes dá formas e sentidos novos aos procedimentos, desenvolvendo o objeto colagem, (e ao mesmo tempo o objeto descolagem) com potencia renovada que,não obstante,apresenta um enlance indireto,um aspecto meditativo que se acrescenta à imediatez matérica do trabalho. Diríamos: matéria Disposta ao espaço.

Entre os materiais à disposição em sua produção mais recente Flávia lança mão do papel e, eventualment de lâminas de ferro, que banha reiterada e pacientemente em água para oxidá-las de maneira natural. Ambos os materiais interagem nos trabalhos. O papel empregado é o papel filtro, mata borrão colado em camadas superpostas e ligados de um modo ou de outro à resina, mais comumente mediante demãos protetoras.

As camadas do papel constituem um volume de estratos que será trabalhado por intervenções da artista, entre as quais se destacam os desfolhamentos (descolagens), as incisões, as lacerações, as recolagens, as solturas, os engastes, as dobras, as voltas.

Revelar ou ocultar os segredos das entranhas de tais estratos é o papel dessas operações que podem trazer à tona, com variados graus de definição, vestígios de gravuras metamorfoseadas; de registros gravitados; de pinceladas gestuais: tatuagens de uma pele que traduz sua história; marcas de uma escritura cifrada. São subtrações ou acréscimos, rupturas e religamentos. Compõem-se de manchas e sulcos, veios, cortes cirúrgicos que remetem, sem esgotar-se nela, à leitura matérica do trabalho.

 

João Evangelista de Andrade Filho

Diretor do Museu de Arte de Santa Catarina, Historiador da arte, Professor.

 



Poetical text of Nestor Habkost regarding the work.
Installed in the Museu de Arte de Santa Catarina, Florianópolis, SC - year 2000
and in the cultural Workshops of Uberlândia - MG - year 2001
 

The regard of archaeologist, geologist, cosmologist? We are forced to interrogate what in it gives them to see with refined sharpness the plastic artist Flávia Fernandes. When if it enters in contact with its recent work, the drift is inevitable and to place a necessity almost.

Acrylic resin, paper, wood, fabric and ink, are materials that assume unusual forms. Everything is composed in fragments as if they were indications of a problem.

fragment 1 - Blade is archaeological workmanship. On the soil in tone that suggests blood thin, we have in the form of an instrument the rescue of a paleolithic instrument, testimony of the time that brings up to date in the quick and deep cut of the part frontal, the violence on the layers of the land, as the ones that is pulled out of the planetary surface daily for the man, transforming them into opened wounds, alert to a civilization that if svanish.

fragment 2 - Fossil it launches the look to an action of the nature, the vision penetrates the sedimentation process that transforms vegetal and animal species into minerals. The time if extends, suffers an allonge, the geologic ages becomes almost insignificant the unfinishable nows, deposited in beings.

fragment 3 - Band of time can be seen as a spectral surface of disposal of events. The clipping explosion, species of proliferation of time imperfections, hinders, as initially it suggests the heading of the workmanship, the succession as linear chaining between present and future past. In the imperfection of the time the event precipitates - producing a passed and future fold between, or a form of wrinkle where a compressed gift escapes, shortened. Cut time in layers in now.

fragment 4 - Passage is the tracing, if thus if it can say of the uncommon one. In it we learn signals of that it sounds as a distinguishing line of territories that makes to submerg, as a river in movement, its edges. The white and the black person more than chromatic game, distinguish geologic entities in transformation. Passage becomes, in this in case that, not it covered passage, but the mutation in itself exactly.

fragment 5 - fragment of a great planetary explosion the drift in the sideral space or only one piece of land rind? Of the barren part, parched and almost deceased will be able to still sprout the life? Or it will keep it, for a projected observer very ahead, the secret of what already she was, particle the particle, layer the layer the cosmological history of the land.

Here it is the traces or indications of a fidget that the workmanship develops in a rude materiality. Flávia crosses the plan of sensitivity to reach the plan of the thought. It fits we to chance on with the problematic one and to investigate the direction, sublime moment where the art in makes them to think.

 

Nestor Habkost

Philosopher and professor of philosophy of the UFSC.


 

Critical text of João Evangelista de Andrade Filho

On the cultural evironement of Florianópolis they invigorate how much illusory so persistent plate.

The characterization as Island of the Fancy and the art Myth-magician, despite it agrees to the tourism, does not resist the analysis of the facts. This, in contrast, dirnos-went that it is about research and update, fidget, not stablish place. At least thirty artists who live in the city, work entailed to the international repertoire of the present time and are determined to contribute for the captation of the essence of the reality contemporary, far, therefore of myths and magics.

In this group if it detaches Flávia Fernandes for the boldness of making, for the intelligence and boldness of the process; for the originality in the treatment of the art object; for the magnifying of the limits of the plastic experience.

For dominating the resources that in such a way serve to the captation of the impulses and the exploration of the materials how much to the systematization of the problems and constructive solutions; for generating subtle coherence in the structure of the object. Flávia Fernandes can grant the luxury to it to express itself in complex terms and laborious, even that aims at and reaches the simplicity that, logical according to cultural of today, guarantees the good device.

Its paintings - object, or better, glue - objects, abstract, show to a commitment between objectiveness and subjectivity that beyond enriching the behavior, surprises for the paradox of the result. With effect, because of the delayed draftsmanship, implicit in the method and resistance of the materials, if it infers a filtering notion, of purification, that the concluded and mounted workmanship only goes to disclose. And discloses it as decanting itself the pure one of the impure one, the clean one of the contaminated one; as becoming to sprout the sharpness of the demanding form from the “badly” spotted or “badly recorded elements”, in the appearance launched at random, but infallible points of reference in the reading that wandering of the eyes has to add to the work that if uncurls.

Proper of who, in subtle measures, it plays with the spontaneity and the calculation, with the intuition and voluntarism, what prioritary it prioritary characterizes the depth of the thought and of the vision of the artist is its ethics of the freedom and the space.

When in certain height of 50 years the bidimensional work of art was liberated of the traditional format of the empire of the frame, confided for plastic artist one without number of possibilities, an enrichment of the half ones very used to advantage well, at its moment for the “art povera”. With remeeting of doors opened for the generation of Burri, of Milares, Tapies and Rotella, no longer limit between bi and the three-dimensional one, Flávia Fernandes gives forms and new directions to the procedures, developing the object glue, (and at the same time the sheets taking offs) with harnesses renewed that, not obstante, it presents one enlance indirect, a meditating aspect that if adds to the immediate material of the work. We would say: substance Made use to the space.

It enters the materials to the disposal in its production more recent Flávia launches hand of the paper and, occasinally of iron blades, that it bathes patiently reiterated and in water to oxidate them in natural way. Both the materials interact in the works. The employed paper is the paper filter, kills glue blot in layers on superece of fishes and in a way or another one to the resin, more ordinarily by means of protective coats.

The layers of the paper constitute a volume of stratus that will be worked by interventions of the artist, among which if they detach the paper taking offs, the incisions, the maul, the reglue, the disengage, swivel, the folds, the returns.

To disclose or to occult the secrets of the viscera of such stratus is the paper of these operations that can bring to the surface, with varied definition degrees, metamorphosed vestiges of engravings; of gravitaded registers; of gestuals flicks: tattooings of a skin that translates its history; marks of a ciphered writing. They are subtractions or additions, ruptures and relinks. Spots and surgical ridges, lodes, cuts that they send, without being depleted in it are composed in, to the materical reading of the work.

 

João Evangelista de Andrade Filho

Director of the Museu de Arte de Santa Catarina, Historian of the art, Professor.